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Ex-atendidas, voluntárias e colaboradoras do Grupo Primavera se reencontram e celebram histórias transformadas pela educação

1 de set.
6 min de leitura

Cerca de 60 mulheres se reuniram em Campinas para celebrar os 45 anos da instituição



Algumas chegaram ao evento acompanhadas de filhas e netas. Outras voltaram décadas depois de passarem pelos projetos da instituição. Havia ainda aquelas que permanecem até hoje no dia a dia do Grupo Primavera. Em comum, todas compartilham histórias atravessadas pelo afeto, pela educação e pelas oportunidades que ajudaram a transformar suas trajetórias.



Foi assim que cerca de 60 mulheres se reencontraram no último sábado, no Centro Social Laudato Si, localizado no Parque Jambeiro, em Campinas, em um encontro promovido pela fundadora do Grupo Primavera, Jane Sieh. A reunião celebrou os 45 anos da criação da Organização da Sociedade Civil (OSC) e reuniu ex-atendidas das primeiras turmas, voluntárias e colaboradoras que ajudaram a construir essa história.


“Esta é uma comemoração dos resultados da colheita de sementes plantadas há 45 anos. Foi uma audácia criar algo dessa natureza, eu mal falava o português na época, mas lá aprendemos a conviver, suprindo e amando uns aos outros, apesar das dificuldades inerentes em qualquer relacionamento. Hoje é dia de gratidão”, disse Jane Sieh, que nasceu na China, morou nos Estados Unidos e se mudou para Campinas anos antes da criação da entidade.



Durante 35 anos, Jane e seu marido, John Sieh, atuaram no Primavera. Para John, construir e manter a instituição também significou estabelecer relações que foram muito além da busca por recursos. “Crescemos lateralmente com as voluntárias, ganhamos parceiros com amizade, exemplo e bom coração. Mas não foi fácil buscar empresas, doações e recursos para a manutenção das atividades”, explicou.


Quatro décadas depois, os resultados dessa trajetória apareceram nas histórias de mulheres que passaram pelo Primavera ainda meninas e hoje ocupam diferentes espaços na vida profissional e familiar. Elas reforçaram a importância do trabalho desenvolvido pelo Primavera no Jardim São Marcos, bairro marcado pela violência e alta vulnerabilidade social no início da atuação da instituição.


“Aprendemos o que era bondade e valores como solidariedade, respeito e disciplina. Descobrimos que era possível sonhar e que nossa origem não determinava o nosso futuro. As voluntárias nos incentivavam a buscar os estudos e um caminho profissional. Descobrimos que a fé, a educação, os valores e o amor ao próximo têm o poder de transformar vidas”, conta Alessandra Molan, bióloga, hoje gerente de um laboratório de nutrição animal.


A educação, para muitas delas, abriu portas que antes pareciam distantes. “Meus pais tiveram oito filhos e nos transmitiram os valores que foram consolidados no Primavera. Sou pedagoga, fiz mestrado e sonho em fazer doutorado. Moro em Minas Gerais há 30 anos e sou grata ao trabalho que me deu a noção de compromisso, assiduidade e responsabilidade”, afirma Sandra Ferreira.


Para Givanilda Souza, cuja família deixou Alagoas para viver no interior de São Paulo, foi o acolhimento recebido no Primavera que marcou sua trajetória. “Eu não me sentia amada, acolhida pela minha família. Ser atendida pelo Primavera me permitiu uma vitória: concluir o ensino médio. Depois, fui forte por meus filhos, o que permitiu ter uma filha dentista e outra cursando Economia na Unicamp”, destaca.


A história de Givanilda também ganhou uma dimensão especial porque sua filha, Jéssica Souza, passou pelo Primavera e levou consigo uma habilidade aprendida ainda na infância. Ao ingressar em Odontologia na Unicamp, ela se lembrou do bordado ensinado pelas voluntárias, que acabou se tornando útil nas aulas de sutura na universidade. “Durante minha formatura chorei muito ao pegar meu diploma e ninguém entendeu a razão de tantas lágrimas. Mas ninguém conhecia todo o caminho percorrido até eu chegar ali”, disse Jéssica.


Meninas de valor


Para algumas famílias, a história construída no Primavera atravessou gerações. A presença de Adriana Amancio, acompanhada das filhas Kimberly e Julia Alvarenga, mostrou como os vínculos construídos na instituição permaneceram vivos ao longo do tempo.


“Nascemos e crescemos em um bairro humilde e o trabalho da instituição foi muito importante para nos desenvolver pessoal e profissionalmente. Em minha primeira entrevista de emprego, Sandra Zuliani, coordenadora artística do Primavera, me acompanhou. E até hoje estou na mesma empresa, me graduei em Administração de Empresas e sei que as meninas atendidas sempre tiveram seu valor reconhecido não só no local de trabalho, como na comunidade”, afirma Kimberly.



Outra história que traduz a combinação de afeto e oportunidade é a de Raquel Arouca. Ela ingressou no Primavera em 1989, com apenas 9 anos, embora a idade mínima para ingresso na época fosse de 12 anos. Raquel insistiu para conseguir uma vaga e afirma que aprendeu a abraçar as pessoas dentro do Primavera, já que a base do trabalho foi o afeto, com um olhar atento para cada indivíduo e para seus sonhos.


Persistente e estudiosa, conseguiu, com a ajuda de Jane Sieh, uma bolsa de estudos em colégio particular e, anos depois, ingressou na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em Biologia, seguindo posteriormente para o doutorado na USP (Esalq)  de Piracicaba. “Sou a primeira da minha família a cursar a universidade. Eu carrego o Primavera dentro de mim e, assim como as demais meninas, não esqueço de onde eu vim”.


A lembrança do acolhimento também aparece na trajetória das irmãs Lidiane e Elisângela Misael, filhas de Maria José Andrade, conhecida como Zezé, que trabalhou na cozinha do Primavera.


“A rede de apoio que minha mãe solo tinha era o Primavera. As voluntárias deixavam seus problemas em casa para nos ensinar e ajudar. Acho que elas não sabiam como influenciariam nossas vidas, já depois de adultas. Somos muito gratas também ao Primavera pela comida, pois era a principal refeição do nosso dia”, contou Lidiane.


Para a engenheira Cristiane Pelissari, o Primavera nasceu de um projeto desenhado por mulheres para ampliar oportunidades para outras mulheres. Ela relata que a voluntária que a acompanhou quando criança foi a segunda mulher, depois da própria mãe, a acreditar em seu potencial. “Dona Jane foi minha primeira mentora, a madrinha que celebrou cada conquista minha. Acredito no poder da educação que transforma destinos. O Primavera foi os braços, os alicerces e as alavancas que nos deram impulso para a vida”.


Um legado que continua


Muitas mulheres voltaram no tempo para relembrar a infância, porém outras continuam ajudando a construir diariamente a história da instituição. É o caso de Josiane Brito, gerente de Produto do Grupo Primavera, que chegou à organização há 40 anos.

“O Primavera me deu a oportunidade de desabrochar. Eu fui transformada pela instituição. Dr. John praticamente me empurrou para a faculdade, após eu terminar o curso técnico. Formei minha família, tive filhos e um neto e permaneço no Primavera até hoje, continuando o legado que Dr. John e Dona Jane construíram”.



Há 21 anos no dia a dia da instituição, Ruth Maria de Oliveira é hoje gestora executiva do Primavera. “Trabalho na instituição para continuar com o legado e honrar com excelência todas as contribuições do Primavera para o território em que atua”.


Ao final do encontro, a emoção que marcou as histórias compartilhadas também foi destacada por Carmen Rodrigues, ex-presidente do Grupo Primavera. “Isso nos trouxe a crença de que o ser humano é bom, não podemos deixar de acreditar”.


Indicadores de impacto


As histórias individuais encontram respaldo também nos números da própria instituição. Um levantamento realizado com cerca de 100 ex-atendidas revelou que, entre as entrevistadas, não foram registrados casos de evasão escolar, gravidez precoce ou prostituição. Além disso, 85% concluíram o ensino médio, 30% fizeram curso técnico e 18% chegaram ao ensino superior.


Mais do que números, os indicadores ajudam a dimensionar uma transformação que ganhou rosto e voz durante o reencontro: meninas que passaram pelo Primavera construíram suas próprias trajetórias e, em muitos casos, viram seus filhos e netos também se beneficiarem das oportunidades abertas pela educação.


“No encontro que reuniu diferentes gerações, o legado do Primavera apareceu menos como uma lembrança do passado e mais como uma história que continua sendo construída — nas escolhas profissionais, nas famílias formadas, nas oportunidades conquistadas e na capacidade de cada uma dessas mulheres de sonhar para além das circunstâncias em que começaram suas vidas”, destacou Ruth Oliveira.


Criado em 1981 no Jardim São Marcos, o Grupo Primavera nasceu com a missão de ampliar as oportunidades de meninas em situação de vulnerabilidade social. Ao longo de 45 anos, a organização atendeu cerca de 15 mil crianças, adolescentes e jovens por meio de programas voltados à educação complementar, formação pessoal, cultura e desenvolvimento profissional.

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